QUEIMA DE ARQUIVO: A NASA destruiu centenas de fitas encontradas no porão de um homem falecido

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Segundo documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, mais de 300 fitas magnéticas, algumas dos tempos do Programa Apollo, foram descobertas.

Semanas antes do natal de 2015, a NASA fez uma descoberta impressionante.
No porão de um homem falecido no estado da Pensilvânia, nos EUA, encontravam-se 325 fitas magnéticas e dois computadores antigos, todos datados da época do Programa Apollo, o conjunto de missões que colocou o homem na Lua. Embora em más condições, os artefatos de mais de 40 anos exibiam as logomarcas do Centro de Voo Espacial Goddard e do Laboratório de Propulsão a Jato, duas instituições da NASA. Ninguém, exceto talvez seu falecido dono, sabia qual era o conteúdo dessas fitas.
Os artefatos foram entregues à NASA por um catador de ferro-velho — e conhecido do dono original — que, embora afirmasse ter ganho as fitas, decidiu "fazer a coisa certa" e entregá-las de volta à agência.
Algumas das fitas estavam etiquetadas com títulos como Pioneer 8 e Pioneer 9missões espaciais de monitoramento do clima que enviaram satélites à órbita solar em meados da década de 60. A sonda Helios-A chegou a 46.5 milhões de quilômetros de distância do Sol, estabelecendo, na época, o recorde de menor periélio da história.
Outras fitas faziam referência a sondas mais famosas como a Pioneer 10 e a Pioneer 11, responsáveis pelas primeiras imagens detalhadas de Júpiter e Saturno. Segundo nossa fonte, alguns ex-pesquisadores da NASA acreditam que dados mestre (ou MDRs, na sigla em inglês) relativos à última sonda estariam desaparecidos.
Lista das fitas descobertas no porão do colecionador.
Nos cinco meses seguintes, funcionários do Centro de Voo Espacial Goddard, localizado em Greenbelt, Maryland, tentaram desvendar o conteúdo das fitas magnéticas. O Motherboard soube da investigação por meio de um relatório emitido pelo Gabinete do Inspetor Geral da NASA e obtido mediante uma solicitação à Lei de Acesso à Informação. Esses mesmos documentos também foram tema de uma matéria publicada pelo site noticioso Ars Technica na última sexta-feira. O nome do último dono das fitas não aparece no relatório da OIG.
Após a descoberta dos documentos, arquivistas da NASA se dedicaram à análise das fitas, questionando cientistas acerca de possíveis extravios de dados de missões passadas. Em 2006, por exemplo, a NASA admitiu ter reutilizado 45 fitas que continham gravações originais da icônica caminhada na Lua de Neil Armstrong e Buzz Aldrin, astronautas que participaram da famosa missão Apollo 11. Hoje, mais de dez anos depois, o fantasma das fitas regravadas ainda paira sobre a agência.
"É bom explicar que, quando mencionei o caso Apollo como exemplo do que consideraríamos significativo, eu estava falando do caso das fitas perdidas que virou notícia uns anos atrás", escreveu um funcionário Centro de Voo Espacial Goddard cujo nome foi omitido para colegas em abril de 2016, também acrescentando que eles não haviam encontrado "nenhuma identificação que indicasse alguma relação com a missão Apollo".
No entanto, ainda há esperança.
"Os artefatos encontrados parecem ser fitas análogas de instrumentação", escreveu um outro funcionário da NASA num email sobre a história das fitas.
Foto de um minicomputador da década de 60 encontrado na coleção do homem falecido.
Foto de um minicomputador da década de 60 encontrado na coleção do homem falecido.
Foto de um minicomputador da década de 60 encontrado na coleção do homem falecido.
Foto de um minicomputador da década de 60 encontrado na coleção do homem falecido.
Não se sabe se as fitas contêm dados originais ou regravados. Na época, essas cópias serviam tanto como backups quanto como meios de extração de dados.
"Se você só tem uma fita de dados e ela foi engolida pela unidade de fita, desmagnetizada por algum ímã, ou se alguém derruba café nela... os dados somem, então por isso é comum fazer algumas cópias", disse Larry Kellogg, ex-engenheiro de sistemas da NASA que ajudou a desenvolver a Pioneer 10 e a Pioneer 11.
Aproximadamente 215 das fitas encontradas estavam sem identificação, o que faz a NASA acreditar que elas estariam em branco, visto que as etiquetas eram removidas após as fitas serem "arranhadas" ou reutilizadas (na época, as fitas magnéticas eram uma tecnologia cara, e reutilizá-las era uma forma de reduzir custos).
As fitas etiquetadas, por sua vez, podem ser "cópias de cópias de cópias", afirma Keith Cowing, ex-biólogo espacial da NASA e editor do portal NASA Watch.
"Considerando a quantidade de fitas, aposto que elas não são originais. Mas isso não importa", acrescentou ele. "O que importa é que esse homem tinha uma biblioteca pessoal de dados da NASA".
Muitos detalhes da investigação ainda estão vagos, e os nomes de todos os envolvidos, incluindo o do colecionador, foram omitidos por motivos de privacidade. 
O conteúdo das fitas permanecerá, no entanto, um mistério: durante nossas pesquisas, o Motherboard obteve a informação de que as fitas foram destruídas. 
O Gabinete de Gestão de Equipamentos & Abastecimento da NASA disse ao Motherboard que "todas as fitas magnéticas foram recolhidas pelo Sistema de Reciclagem da Agência, conhecido como UNICOR, no dia 2 de setembro de 2016. Nosso gabinete recebeu um Certificado de Destruição da Unidade de Processamento da UNICOR assinado e datado do dia 6/9/16".
Segundo o gabinete, o descarte das fitas seguiu os Requisitos Processuais da NASA, que estabelece protocolos para a "identificação e descarte de possíveis artefatos".
Resgatar os dados contidos nessas fitas seria "muito dispendioso", segundo um arquivista da NASA que examinou os artefatos. Mesmo que isso fosse feito, não havia garantias de que algo poderia ser recuperado dessas fitas, visto que elas estavam "extremamente mofadas".
Os computadores não eram de interesse para a NASA e portanto foram deixados na residência do falecido colecionador ("diga à NASA que nada disso foi roubado", teria dito alguém próximo ao colecionador para o catador de ferro-velho, alegando que os artefatos teriam sido entregues a ele por uma unidade local da IBM).
"A conservação de dados é uma das prioridades da NASA, então ao ser informada da existência desses artigos, a agência deu início a uma nova averiguação entre 2015 e 2016", afirmou um porta-voz da NASA.
"A NASA determinou que o conteúdo das fitas magnéticas foi, muito provavelmente, apagado antes de sua transferência original", acrescentou o porta-voz. "Além disso, as fitas estavam extremamente mofadas. Considerando esses fatores, a agência determinou que as fitas magnéticas não possuíam qualquer valor, fosse ele intrínseco ou informativo, para a agência".
Se as datas inscritas nas fitas (que vão de 1961 a 1974) estiverem corretas, elas coincidem com um momento da história da NASA em que milhares de fitas magnéticas foram destruídas, abandonadas ou reutilizadas, deixando lacunas nos registros de várias das primeiras missões da NASA.
Um relatório elaborado em 1990 pelo Departamento Geral de Contabilidade (GAO, na sigla original) dos EUA e entregue à Comissão de Tecnologia e Ciência da Câmara criticou a agência por não arquivar dados potencialmente valiosos. 
Segundo os autores do relatório, dados de 18 de 263 missões científicas ocorridas entre 1968 e 1987 nunca foram divulgados pela NASA. A NASA estima que entre 30% e 59% dos dados coletados em missões como a Pioneer 10 e a Pioneer 11 teriam sido arquivados no Centro Nacional de Dados de Ciência Espacial (NSSDC, na sigla original), o arquivo permanente da agência — um esforço de arquivamento descrito pelo NSSDC como "bom".
O relatório do GAO descreve o caso de um arquivista da NASA que "se desfez de milhares de fitas porque ele não tinha mais espaço para guardá-las, e também porque ele relutava em mencionar o problema para o diretor do Arquivo", e que, a fim de salvar algumas delas, "autorizou a destruição de várias outras fitas".
Na época, a NASA alegou que a destruição desses dados devia-se a uma série de fatores, entre eles a falta de concordância formal entre a agência e seus pesquisadores e a ausência de uma diretriz padronizada de arquivamento de dados. Desde então, a agência adotou um novo sistema de gerenciamento de dados em parceria com o Arquivo Nacional dos EUA, que dita estritamente quais dados podem ou não ser destruídos.
Se as fitas "foram usadas em missões anteriores, seus dados já foram arquivados e disponibilizados em nosso arquivo, portanto tentar decodificá-las seria um desperdício inútil de tempo e dinheiro", disse Kellogg.
"Quando o Projeto Pioneer foi encerrado", disse ele, "o computador usado nessas missões foi usado na missão Lunar Prospector e em seguida reutilizado na Missão Kepler".
Mais tarde, a NASA converteria os MDRs das sondas Pioneer 10 e Pioneer 11, na época em péssimas condições, para discos ópticos, descartando na sequência os antigos MDRs. No entanto, Kellogg não soube nos informar se havia MDRs entre os itens encontrados na Pensilvânia.
Uma possível explicação seria que as fitas conteriam dados perdidos do sobrevoo de Júpiter, uma missão transmitida pela sonda Pioneer 10 em 4 de dezembro de 1973 que resultou em imagens inéditas do planeta e de suas luas.
Em 1980, a NASA anunciou que a Pioneer 10 e a Pioneer 11 haviam saído de suas trajetórias e estavam vagando pelo espaço sideral — um evento hoje conhecido como "anomalia Pioneer" e que foi atribuído à interação entre forças termais e as sondas.
Décadas mais tarde, na esperança de investigar essa anomalia, uma equipe de pesquisadores solicitou os MDRs da Missão Pioneer a Kellogg, que havia copiado os arquivos para um computador moderno. Ao averiguar os arquivos, no entanto, os pesquisadores perceberam que nove dias de registros da sonda Pioneer 10 haviam desaparecido. Segundo os registros de transcrição da NASA, os dados referentes a esses dias nunca foram transferidos dos MDRs originais para os discos ópticos.
"Talvez alguém tentou usar esses dados para gerar uma nova imagem de Júpiter usando um software mais recente", sugeriu Kellogg. "Mas não temos como confirmar. Tenho algumas lembranças vagas sobre o assunto, mas talvez minha memória esteja me pregando uma peça".
Embora a NASA não mencione as fitas desaparecidas da Pioneer 10 em seu relatório oficial, ela faz referência aos "esforços heróicos" de seus funcionários para recuperar os dados perdidos durante a anomalia.
Perguntei à NASA se a agência teria pensado nessas fitas durante a auditoria das relíquias encontradas em 2016. "O Projeto Pioneer foi discutido extensivamente..." se limitou a responder um porta-voz da NASA.
Uma série de emails nos quais funcionários da NASA discutem os esforços de recuperação dos dados referentes à "anomalia Pioneer".
É possível que o elemento menos misterioso dessa história seja o fato de alguém ter conseguido colecionar tantas relíquias da NASA.
Durante os anos 70 e 80, itens excedentes eram frequentemente leiloados pela NASA. De tempos em tempos a tecnologia tornava-se obsoleta, o financiamento minguava, ou a falta de espaço virava um problema. Alguns itens encontram-se hoje em coleções particulares; outros viraram sucata. Em alguns casos, funcionários e prestadores de serviços se apropriavam de itens que estariam fadados ao esquecimento.
Muitos equipamentos da época do Projeto Apollo, por exemplo, estão desaparecidos.
"Nos últimos 10 anos muitos desses itens apareceram no eBay ou em casas de leilão. Colecionadores também trocam itens que não vão a leilão em negociações privadas", disse-me David Meerman Scott, colecionar de parafernália espacial e autor do livroMarketing the Moon: The Selling of the Apollo Lunar.
Essa coleção particular, considerada um tesouro por muitos e lixo por outros, é provavelmente uma das muitas coleções de itens da NASA que existem por aí. Talvez, com um pouco de sorte, a descoberta de novas coleções irá revelar novas informações sobre a história da exploração espacial.
Nas palavras de um arquivista da NASA: "Para mim, isso é arqueologia".



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