ESPECIAL 9/11 - O DIA QUE A TERRA PAROU (Parte III)

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A morte no fogo, num
salto ou no desabamento

Como os pilotos suicidas conseguiram
destruir as torres feitas para resistir
a colisões, incêndios e tremores?
Juntaram tudo isso num atentado


Reuters
SEM SA�DA
Um helic�ptero que passava diante das janelas estreitas era a �ltima esperan�a de pessoas acuadas pelo fogo. Ele n�o p�de ajud�-las
As torres gêmeas do World Trade Center foram construídas para resistir ao impacto de um Boeing. E resistiram. Não caíram quando os aviões entraram pelas janelas, numa manobra que revelou a enorme perícia de quem os pilotava. O modo como os terroristas acertaram os prédios dá indícios de um planejamento milimétrico. Na velocidade máxima, acima dos 800 quilômetros por hora, um grande avião empurra tamanha quantidade de ar a sua frente que é virtualmente impossível que acerte um paredão numa colisão frontal. "A turbulência seria tão forte diante da parede que tiraria o Boeing da trajetória", explica David Barioni Neto, vice-presidente técnico da companhia aérea Gol. Por isso eles voaram mais lentamente – calcula-se que a 450 quilômetros por hora – e optaram pela trajetória curva para chegar ao objetivo. No caso do Pentágono, em que não há imagens do momento do impacto, o problema é parecido. Descer uma aeronave de 115 toneladas numa pista de aeroporto exige combinar velocidade e aerodinâmica com equipamentos de precisão. Pousar sobre um alvo específico é quase uma loteria. Em todos os momentos, os extremistas mostraram o conhecimento de quem passou muito tempo num simulador de vôo, além de prática efetiva. Desligaram, por exemplo, os transponders que emitem sinais eletrônicos sobre a localização das aeronaves. Passaram também a voar em baixa altitude, fora do alcance dos radares. E, pelo menos num caso, foram eles que mandaram os passageiros ligar por celular para avisar do seqüestro.
Rubens Chaves
ESTILO AMERICANO
Um shopping no subsolo (foto) e festas de casamento nas alturas. O World Trade Center era mais que um cartão-postal destinado a entreter turistas
Queriam publicidade máxima de seus atos e agiram como se tivessem antecipado o cenário que construiriam. Mesmo bastante avariadas, as torres não teriam caído só com os choques dos 767 contra suas estruturas. Cada aeronave colidiu contra as armações de aço e vidro com uma força de impacto equivalente a mais de 1 000 vezes o próprio peso. A maior parte da estrutura dos aviões é de alumínio. Numa batida dessas, seu corpo vai se deformando, franzindo, até transferir sobre a superfície atingida uma força capaz de rasgá-la. Nesse ponto, tudo o que está em seu interior já foi arremessado para a frente como se houvesse uma freada instantânea. Só então o resto da fuselagem penetra na estrutura. Quando isso aconteceu, os prédios tremeram, oscilaram e rangeram, como contam os sobreviventes do atentado terrorista em Nova York, mas se mantiveram de pé. Muita gente que estava nos andares inferiores escapou da morte na hora seguinte. Pessoas que estavam acima do 103º andar no edifício norte, o primeiro a ser acertado, ou do 93º da torre sul não tiveram a mesma chance. Os aviões em chamas praticamente dividiram seus alvos em dois blocos. Tudo o que havia nos pavimentos diretamente atingidos, móveis e pessoas, foi pulverizado pela explosão ou arremessado para fora pelo deslocamento de ar. Quem estava acima do ponto de colisão não tinha chance de passar pela parede de chamas que tomou quase dez andares de cada construção. Todas essas pessoas acabariam morrendo – no fogo, num salto de mais de 300 metros ou no desabamento.
Foram os incêndios, combinados com uma característica tecnológica dos arranha-céus, que os puseram abaixo. No impacto, cada área atingida alcançou imediatamente a temperatura de 450 graus Celsius, o ponto de combustão do querosene de aviação. Cada Boeing levava combustível suficiente para voar por mais 4.000 quilômetros – ou para queimar por algumas horas. Divisórias e móveis de madeira e plástico incendiaram-se também. A temperatura chegou aos 1.000 graus. O aço não se funde nesse ponto, mas perde dureza. Sustentados pelas colunas de aço de sua armação exterior, como gaiolas, os edifícios tiveram várias delas cortadas pelo efeito faca da penetração dos aviões. Depois, chegaram depressa ao ponto de colapso estrutural por causa do peso nas partes superiores aos pontos em que aconteceram os choques. O topo de cada torre sustentava um engenho cuja função era contrabalançar os efeitos do vento. Para garantir a resistência da estrutura a ventanias de até 320 quilômetros por hora, que deslocavam lateralmente a parte mais alta dos edifícios mais de 1 metro, essa placa de aço e concreto, montada sobre roletes, movia-se sempre na direção oposta à inclinação, impedindo que se alterasse o centro de gravidade do conjunto.
Essa plataforma pesava 600 toneladas. Cada laje dos blocos tinha mais 40 toneladas. Havia dezoito lajes acima dos andares avariados na torre sul e oito sobre os que ardiam no outro prédio. Quando o aço começou a se deformar, pelo calor, todo esse volume veio abaixo e funcionou como um martelo – um martelo que ganhava mais peso a cada andar que ia sendo esmagado. Técnicos em edificações supõem que os terroristas imaginaram esse efeito cascata de destruição ao planejar os atentados. "Se tivessem atingido o primeiro terço inferior dos prédios provavelmente eles ainda estariam de pé", diz o arquiteto paulista Rubens Ascoli Brandão, que defendeu há quatro anos uma tese sobre o World Trade Center. "As colunas externas, que seguram tudo, começam muito grossas embaixo e vão afinando à medida que têm de suportar menos peso." No ponto em que acertaram, os pilotos conseguiram produzir os piores efeitos. O World Trade Center agüentou os aviões, agüentaria focos de incêndio e até bombas. Mas impacto, chamas e explosões foram agressões demais.
"Na hora da pancada, o chão se mexeu e eu me senti como se estivesse pisando numa gelatina", recorda o brasileiro Guilherme Castro, de 27 anos, funcionário de uma corretora que ocupava o 25º andar da primeira torre atingida. Na descida, ele encontrou uma escada bloqueada. Voltou e tomou outro caminho. Mais no alto, as torres tinham andares livres – o 44º e o 78º –, com casas de máquinas e grandes vãos horizontais para passagem de vento. Nesses pontos, era difícil encontrar a continuação das escadas. Houve quem morresse por causa disso. Quando Castro finalmente chegou à calçada, ouviu um estrondo ao passar por vítimas que eram socorridas na rua por bombeiros e policiais. Era o avião que atingia a segunda torre. Em seguida, vieram os desabamentos. Uma enorme nuvem de pó rolou sobre as ruas. Ela também penetrou no sistema de metrô da cidade, pelas estações que ficavam embaixo do World Trade Center, e seguiu por quilômetros dentro dos túneis. Os subterrâneos do complexo foram soterrados. "Estávamos bem lá embaixo quando o metrô parou", recorda Luciana Salles, que ia com o marido, Alexandre, visitar a Estátua da Liberdade. "Um funcionário nos guiou pelos trilhos, no meio da poeira, até uma grade de ventilação. Saímos numa rua repleta de corpos e pedaços de pessoas."
Era tal a quantidade de pó e fumaça sobre Nova York que o fog pôde ser visto até por astronautas embarcados na Estação Espacial Internacional, que sobrevoava o Estado do Maine na manhã da terça-feira, a mais de 300 quilômetros de altura. O impacto dos Boeing com a estrutura de aço também repercutiu longe. Um deles foi registrado numa estação de sismologia da Universidade Columbia, a 20 quilômetros do centro de Nova York. Na escala que mede terremotos, alcançou 2,4 pontos – um tremor bastante sensível para quem via o horror a partir das ruas. Os prédios foram construídos com fundações que penetram por mais de 20 metros numa camada de rocha abaixo dos seis subsolos. As mortes de quem saltava, transmitidas para todo o planeta, foram vistas ao vivo por mais de 150 milhões de pessoas. Por que eles saltavam? Por que não aguardaram pelo socorro até o último momento? "Porque o suicídio é uma reação-limite mas esperada do ser humano", diz Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP. "Diante da certeza de uma morte lenta e sofrida, as pessoas acabam escolhendo um meio mais rápido." Um bombeiro que atuou no incêndio do prédio Joelma, em São Paulo, há 27 anos, conta que o calor era tão intenso que a pele de seu rosto, seu pescoço e suas mãos começou a se soltar. No World Trade Center, a temperatura era muito maior. Ainda houve quem esperasse por socorro, nas janelas, e um helicóptero se aproximou da torre norte a ponto de dar às pessoas a esperança de resgate. Minutos depois o outro prédio ruiu, e a operação se revelou impossível.



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fonte: http://veja.abril.com.br/