ESPECIAL 9/11- O DIA QUE TERRA PAROU [Parte II]

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A descoberta da vulnerabilidade

Fotos AP
MERGULHO FATAL
Com a torre norte j� em chamas, os terroristas lan�am o 767 da United Airlines direto na torre sul do World Trade Center. O avi�o, com 65 pessoas a bordo, espatifa-se contra o pr�dio. A torre desabou uma hora depois
Durante a maior parte da terça-feira passada, os assessores do presidente dos Estados Unidos acharam que ele não deveria retornar a Washington. Era perigoso demais. George W. Bush seria depois criticado por ter ziguezagueado entre bases militares em vez de retomar logo sua cadeira no coração do poder americano, a Casa Branca. O fato é que se temia outro ataque terrorista bem-sucedido, dessa vez à sede da Presidência. As implicações contidas na hesitação de Bush são tremendas. Mostram até que ponto o mundo mudou depois dos ataques às torres do World Trade Center e ao Pentágono. A alteração mais imediata diz respeito ao fim do mito da invulnerabilidade do território americano. O país mais poderoso do mundo viu ícones de sua identidade nacional ser alvejados com desconcertante facilidade. Por volta das 9 horas da manhã, dois aviões de passageiros seqüestrados puseram abaixo as torres gêmeas do World Trade Center, cujo destaque no horizonte de arranha-céus de Nova York simbolizava a supremacia econômica da superpotência. Um terceiro aparelho despencou sobre o Pentágono, sede do poder militar do império, nos arredores de Washington. Um quarto avião tomado por terroristas espatifou-se no solo em campo aberto, depois que passageiros enfrentaram os seqüestradores. "Foi um ato de guerra", definiu o presidente Bush. Tratou-se, de fato, de uma ofensiva terrorista em larga escala, sem similar na história, com milhares de mortos inocentes. Uma das primeiras coisas que se ouviram foi o clamor por revanche. Os americanos acham que é preciso dar o troco – mas contra quem? "Não se trata apenas de capturar essas pessoas e fazer com que paguem pelo que fizeram", disse o subsecretário de Defesa, Paul Wolfowitz. "É preciso também eliminar os santuários, os sistemas de apoio e acabar com os Estados que patrocinam o terrorismo." Até sexta-feira passada, o número oficial de mortos já ultrapassava 5 000, cinco prédios nova-iorquinos tinham desabado e outros, com estruturas abaladas, ameaçavam vir abaixo.


NOVA YORK EM CHAMAS
Inc�ndios tomam conta das duas torres atingidas por avi�es pilotados por terroristas. A cidade perde dois marcos de sua paisagem
Dez anos atrás, depois do colapso da União Soviética, o presidente George Bush, pai de George W., anunciou uma nova ordem mundial, cuja base era o triunfo dos valores americanos e da democracia liberal. Parecia que o derradeiro desafio da humanidade era promover o comércio global. Vive-se agora uma realidade muito mais perigosa. A única superpotência tornou-se alvo de fanáticos dispostos a tudo. Como a nação mais poderosa do planeta pode proteger-se das atrocidades terroristas? A questão talvez tenha de ser formulada de outra forma: qual deve ser o papel dos Estados Unidos nessa nova conjuntura? Bush pode decidir mudar sua política de distanciamento em relação às áreas de conflito no exterior. Em vez de tomar decisões unilaterais, como tem feito desde que assumiu, em janeiro, o presidente pode admitir que os Estados Unidos sozinhos são incapazes de garantir a própria segurança. Precisam da ajuda dos outros países democráticos para uma ação conjunta e persistente contra o terrorismo. Ou, ao contrário, talvez a Casa Branca resolva ser ainda mais isolacionista, olhando para o próprio umbigo e tentando manter longe as encrencas do Terceiro Mundo.
Os acontecimentos empurraram o presidente dos EUA para um teste de liderança que raros de seus antecessores enfrentaram. Em editorial, o influente Washington Post diz que mesmo o presidente Roosevelt, depois do ataque japonês em Pearl Harbor, podia ver um inimigo definido com clareza. "A enormidade que confronta Bush exige habilidades difíceis de encontrar em qualquer presidente, ainda mais em um com apenas oito meses de mandato e sete anos de vida pública", escreveu o jornal. O momento pertence aos guerreiros, reação natural diante da enormidade da agressão. Não é de espantar que, após os atentados, o tom do discurso americano tenha mudado. Desapareceu como por mágica o relativismo cultural e seu corolário, o respeito por aquilo que possa ser considerado politicamente correto. O relativismo cultural, teoria formulada na década de 30 pelo antropólogo americano Melville Jean Herskovitz, preconiza que nenhuma cultura é superior a outra. Que cada uma deve ser entendida dentro de seu próprio contexto e, por isso mesmo, não cabem comparações entre elas. Em 1947, Herskovitz apresentou à Organização das Nações Unidas uma "recomendação" para que fossem respeitadas as culturas dos diferentes povos do mundo.

Mario Tama/Getty Images
Mary Altaffer
AP
HORAS DE PAVOR, MORTE E DESTRUIÇÃO
Na rua, nova-iorquinos usando máscaras contra a fumaça fogem do desabamento iminente (no alto, à esq.). Sem esperança de resgate no World Trade Center, o homem se joga para a morte (no alto, à dir.). Bombeiros vasculham os escombros após a queda dos prédios, numa paisagem que lembra Hiroshima depois da bomba atômica(foto maior)
É dessa perspectiva que alguns estudiosos acham possível justificar, por exemplo, a prática de muçulmanos africanos de extirpar o clitóris das adolescentes. Do relativismo cultural nasceria na década de 80 o discurso politicamente correto, que aboliu do vocabulário palavras e expressões que soam pejorativas a minorias étnicas, homossexuais e portadores de deficiência física. Entre os governos, o politicamente correto baniu de documentos e discursos termos que pudessem soar chauvinistas e prepotentes. Com os atentados, o relativismo sofreu um abalo: por alguns dias, pelo menos, o mundo voltou a ser dividido entre países civilizados e nações bárbaras. E, contra os bárbaros, políticos e analistas pediram "vingança". Com a autoridade de veterano do Vietnã e da Guerra Fria, o ex-secretário de Estado Henry Kissinger aconselhou os americanos a cuidar dos feridos e restaurar algum tipo de vida normal, como primeira resposta ao terrorismo. Depois, o governo deve empenhar-se numa resposta persistente para levar à destruição o sistema responsável pelo atentado. "A vitória não virá num único ataque", afirma Samuel Berger, presidente do Conselho de Segurança Nacional no governo Bill Clinton. "É preciso desencadear uma guerra fria ao terror."

Fotos AP
A DOR DA PERDA
Ambulâncias e familiares desesperados, nas ruas de Nova York: esperança de encontrar sobreviventes
Como Israel, os Estados Unidos estão ansiosos para demonstrar que os ataques sempre serão respondidos. O problema óbvio da retaliação é a dificuldade em identificar o alvo. Na quinta-feira, o secretário de Estado, Colin Powell, confirmou que o principal suspeito é o milionário saudita Osama bin Laden. Fanático islâmico que se esconde no Afeganistão, ele declarou guerra aos Estados Unidos em nome de Alá. Depois de atentados contra a embaixada americana no Quênia e na Tanzânia, em 1998, aviões e navios americanos bombardearam campos de treinamento de Bin Laden e uma fábrica de medicamentos no Sudão, que se acreditava estar produzindo e armazenando armas químicas para terroristas – mas tais ações tiveram pouco efeito. Mesmo que se descubra que o Afeganistão está diretamente envolvido, ataques aéreos não seriam decisivos naquele país arruinado por mais de duas décadas de guerra civil e pela insana política de retorno aos costumes medievais implantada pelo Taliban, a milícia fundamentalista que domina a maior parte do território. Diante do horror da destruição em Nova York, é improvável que o governo ou a opinião pública fiquem satisfeitos com uma simples retaliação aqui ou ali. "Não pensem que um único contra-ataque vai eliminar do mundo o tipo de terrorismo que nós vimos ontem", advertiu Colin Powell. "Isso vai exigir um ataque múltiplo em várias dimensões." Só se pode imaginar como será travada a guerra da superpotência contra terroristas que se escondem nos grotões do Terceiro Mundo. Com o fim das ideologias e depois dos atentados, o planeta está agora obcecado pela segurança. Provavelmente os Estados Unidos darão prioridade aos aliados que os ajudem na manutenção da ordem. É o tipo de discussão da qual o Brasil geralmente fica de fora.

CONTINUA...