ESPECIAL 9/11 - O DIA QUE A TERRA PAROU (Final)

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A cultura do apocalipse

A obsessão americana pelas
catástrofes coletivas não
está apenas no cinema. Ela
existe desde o tempo dos
colonizadores puritanos


Em 1938, o ator e futuro cineasta Orson Welles causou pânico entre os americanos ao ler no rádio, como se narrasse uma notícia, passagens do romance A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. No livro, marcianos invadem a Terra e disseminam a destruição. Um exemplo clássico de como, em sua obsessão pelo apocalipse, os americanos misturam paranóia e entretenimento
A cultura americana já imaginou incontáveis vezes a sua própria aniquilação. A tal ponto que imagens únicas em seu horror, como as do desabamento das torres do World Trade Center, pareceram estranhamente familiares ao ser vistas pela TV. A impressão de que tudo se assemelhava a um filme deve-se ao fato de que os estúdios de Hollywood produzem ano após ano fitas em que Nova York e outras grandes cidades dos Estados Unidos são submetidas a ataques terroristas, explosões nucleares, devastação por meteoros, monstros e alienígenas. Mas essa fixação em imagens apocalípticas teveinício muito antes does do World Trade Center, pareceram estranhamente familiares ao ser vistas pela TV. A impressão de que tudo se assemelhava a um filme deve-se ao fato de que os estúdios de Hollywood produzem ano após ano fitas em que Nova York e outras grandes cidades dos Estados Unidos são submetidas a ataques terroristas, explosões nucleares, devastação por meteoros, monstros e alienígenas. Mas essa fixação em imagens apocalípticas teveinício muito antes do advento do cinema. O primeiro best-seller americano, publicado ainda na época colonial, em 1662, por um certo Michael Wigglesworth, foi um poema chamadoO Dia do Juízo Final. Pode-se dizer que a obsessão pela catástrofe coletiva, pelo armagedom, pelo fim dos tempos, nasceu com o próprio país.
Os puritanos ingleses que desembarcaram na América do Norte em 1620 vieram imbuídos de idéias peculiares. Fiéis a uma linhagem de pensamento religioso que teve origem na Inglaterra medieval e amadureceu durante a Reforma Protestante, eles se viam como um povo eleito. Sua tarefa era fundar um reino divino na Terra, uma Nova Jerusalém ou uma Nova Canaã, livres da corrupção que grassava na Europa. "Seremos como uma cidade sobre uma colina, e os olhos de todo o mundo se voltarão para nós", proclamou um dos líderes dos pioneiros, o reverendo John Winthrop, num sermão proferido ainda a bordo do navio que os transportava para a América. Mas a convicção de serem um grupo excepcional de homens não os punha a salvo do perigo. Pelo contrário. Intoxicados por suas próprias conquistas, os pioneiros poderiam sucumbir aos mesmos vícios e pecados que, na sua visão, haviam tomado conta do Velho Mundo. E existia também a ameaça exterior. Entre 1675 e 1676, os puritanos, que até ali mantinham relações mais ou menos amigáveis com os índios, enfrentaram o primeiro grande levante de nativos, que não tardou a ser visto como uma antecipação do apocalipse. Mais tarde, esse perigo seria representado por franceses e espanhóis. Ao lidar com esses dois tipos de ameaças, as internas e as externas, os pregadores puritanos criaram um gênero de sermão (a "jeremiad") que projetava catástrofes e imagens do fim dos tempos, apenas para transformá-las em teste para a determinação do "povo eleito". Para não mergulhar por sua própria culpa na decadência e num cataclismo final, os americanos deveriam conceber sua jornada como uma viagem sem fim, perpetuamente voltada para o futuro. Da mesma forma, a resistência indígena e estrangeira deveria fortalecer ainda mais os colonos, porque a eles cabia "irradiar luz sobre a escuridão selvagem", para usar as palavras de Cotton Mather, um dos primeiros e mais prolíficos intelectuais do país.

20th Century Fox

INDEPENDENCE DAY (1996)A quarta maior bilheteria mundial é a súmula do cenário de destruição em massa que o cinema de Hollywood se especializou em evocar. No 4 de julho, dia da Independência americana, todas as principais cidades do planeta são encobertas por discos voadores gigantescos, que realizam um ataque de proporções cataclísmicas. Os cidadãos dos Estados Unidos, então, unem-se em torno de uma idéia que é a base do discurso proferido na terça-feira pelo presidente George W. Bush: ainda que matem e destruam, os invasores serão impedidos, a qualquer custo, de abalar as fundações da maior democracia do planeta
Primeira forma literária a nascer nos Estados Unidos, os sermões com que os ministros amedrontavam seus fiéis e os exortavam a manter-se firmes diante das intempéries legaram temas e metáforas aos escritores que viviam num contexto já não mais tão impregnado de religiosidade. Autores como Ralph Waldo Emerson e o poeta Walt Withman cantaram, no século XIX, uma América grandiosa, enquanto outros, do mesmo período, retomaram o tema do apocalipse. Um clássico como Moby Dick, de Herman Melville, com seu final em que a enorme baleia branca destrói o obstinado capitão Ahab e seu navio Pequod, é um bom exemplo dessa "escola da catástrofe". Mas não é o único. Um dos romances mais lidos daquele século, A Cidade Quaker (1844), de George Lippard, mostra uma Filadélfia corrompida até a medula. Nas páginas finais, o castigo vem dos céus, numa revoada de "anjos da morte" e figuras "de sombra e vapor". No campo da ficção barata, o perigo era representado por índios, proletários grevistas, negros libertos e imigrantes. Todos esses tipos serviram de instrumento para a destruição da América nas obras populares do final do século XIX. Sessenta anos antes do bombardeio de Pearl Harbor pelos japoneses, a "ameaça amarela" fez sua aparição sensacional no romance Os Últimos Dias da República. Nesse livro, os Estados Unidos são conquistados por uma horda de chineses que haviam imigrado para construir as estradas de ferro. É por sua superioridade numérica e por sua disposição para sacrificar a própria vida que os chineses vencem e acabam por erguer sua bandeira nas ruínas de Washington: "O Templo da Liberdade viera abaixo e, sobre suas ruínas, ergueu-se o monstruoso pendão do esplendor bárbaro", escreveu o autor, Pierton Dooner.

Touchstone Pictures

ARMAGEDDON (1998)
Poucos filmes usaram os efeitos especiais de maneira tão eficiente quanto Armageddon para exibir imagens de aniquilação. Na cena acima, um meteorito ruma direto para o edifício Chrysler, em Nova York. Na fita, mais uma vez, a missão dos americanos é salvar a Terra do apocalipse. A honra cabe a um grupo de operários – homens de "sangue vermelho", como se diz por lá – especializados em perfuração de poços de petróleo. Eles são enviados ao espaço, com a tarefa de plantar bombas num meteoro gigante em rota de colisão com a Terra. O mesmo tema rendeu outro filme em 1998, Impacto Profundo, no qual os americanos experimentam um destino menos feliz
Os meios de comunicação de massa ajudaram a transformar a obsessão religiosa e o tema literário em paranóia. Um caso emblemático ocorreu em 1938, quando o futuro cineasta Orson Welles provocou pânico com uma transmissão de rádio na qual narrava, como se fosse um locutor de notícias, a invasão do país por seres de outro planeta. O próximo passo seria a exploração do assunto pela indústria do entretenimento, que se aproveitou das tensões da Guerra Fria para apavorar as platéias. Nos anos 50, foram abundantes os filmes sobre alienígenas invasores, quase sempre uma metáfora para os comunistas soviéticos. Um dos exemplares mais engenhosos dessa safra é Os Invasores de Corpos, de 1956 (refilmado em 1978), em que os seres humanos são tomados por criaturas vindas do espaço. Preservam sua aparência, mas tornam-se autômatos a serviço do mal, tanto piores porque indistinguíveis de pessoas normais. O espectro de um enfrentamento nuclear foi outro tema recorrente no cinema.Código de Ataque, o último teledrama encenado ao vivo pela televisão americana (e refilmado no ano passado, com produção de George Clooney), explorava uma hipótese aterradora: a de que os Estados Unidos não estivessem em controle absoluto de seu armamento. O supra-sumo desse filão, no entanto, ainda é o telefilme O Dia Seguinte, que mostra o horror que se seguiria a um ataque nuclear em grande escala. Exibido em 1983, ele obteve um dos recordes de audiência da televisão americana e deixou os espectadores em estado de choque.

Collection Christophe

PEARL HARBOR (2001)Em 7 de dezembro de 1941, a base naval americana de Pearl Harbor, no Havaí, sofreu um ataque-surpresa dos japoneses, que deixou mais de 2 000 mortos. O episódio foi determinante para a entrada do país na II Guerra Mundial e rendeu um filme ruim. Antes do "dia da infâmia", o "perigo amarelo" já estava presente na literatura dos Estados Unidos: um romance de 1880 imaginava a invasão do país por hordas de chineses dispostas a sacrificar-se em nome de seu império
A fixação por imagens da destruição nem sempre se alimentou de temas políticos. Todo um filão do cinema se dedica apenas a explorar o potencial de devastação de terremotos, vulcões, incêndios e chuvas de meteoros. Mas não há dúvida de que o tema do inimigo "bárbaro" é realmente o mais forte. Nas últimas três décadas, o terrorista é a sua mais assustadora encarnação, seja em livros como os de Tom Clancy, que já fez um piloto camicase mergulhar com um 747 sobre o Congresso americano, seja em dezenas de filmes de ação. Duas fitas dos últimos tempos foram proféticas no que toca à tragédia do World Trade Center: em Nova York Sitiada, estrelada por Denzel Washington e Bruce Willis, a cidade é crivada de bombas por fanáticos muçulmanos, que pretendem com isso pressionar o governo do país a libertar um de seus líderes – indisfarçavelmente calcado na figura de Osama bin Laden, o principal suspeito de ser o responsável pelos atentados da semana passada. Já a transformação de um avião comercial em bomba voadora pode ser vista em Momento Crítico, com Kurt Russell, no qual terroristas islâmicos tomam uma aeronave de carreira e ameaçam jogá-la sobre Washington.
Mesmo em suas versões extremas, aquelas em que nenhum herói consegue, no último instante, evitar o pior, as visões do cataclismo à maneira americana reservam um lugar para o "dia seguinte", para um esforço de reconstrução e cura. Exatamente como nos antigos sermões puritanos, nos quais as terríveis promessas de extinção serviam para reagrupar os fiéis e reacender sua determinação. Segundo o historiador da cultura americana Sacvan Bercovitch, o tipo de discurso proferido pela primeira vez pelos colonos da Nova Inglaterra persistiu ao longo de toda a história do país, às vezes em sua forma original, em orações de dias santos ou discursos de feriado, mas também se metamorfoseando em enredos de livros, filmes e outros produtos da cultura popular. "Os puritanos apresentavam uma comunidade em crise, e usavam a crise como uma estratégia de revitalização social; apontavam uma colônia em perigo, para retirar força da adversidade. O legado desse gênero pode ser constatado em todos os grandes eventos culturais e históricos dos Estados Unidos – da Revolução Americana à Marcha para o Oeste, da Guerra Civil à Guerra Fria e à Guerra nas Estrelas", afirma Bercovitch num estudo clássico. As palavras do presidente George W. Bush, ainda que mal lidas na televisão, ecoam essa antiga melodia. "A América tornou-se um alvo porque somos o mais brilhante farol da liberdade e da oportunidade no mundo. Ninguém impedirá essa luz de brilhar. Eles não vergarão o aço de nossa vontade." Os americanos, enfim, são obcecados pelo apocalipse. Mas trazem, igualmente arraigada, a convicção de que serão capazes de recriar o mundo do nada, já a partir do dia seguinte.

NOVA YORK SITIADA (1998) 
Terroristas islâmicos explodem vários alvos em Nova York. A cidade é ocupada por tropas do Exército e, na tentativa de identificar os extremistas, todos os cidadãos de origem árabe são levados a campos de concentração. O militar vivido por Bruce Willis personifica a visão linha-dura, enquanto o agente federal interpretado por Denzel Washington representa a postura liberal, que defende uma ação baseada na lei. O filme toca ainda numa questão delicada: antes de se voltarem contra os Estados Unidos, os extremistas receberam treinamento e armas de agências de inteligência americanas

O PACIFICADOR (1997) 
Um dos poucos filmes a lidar com uma das ameaças dos novos tempos: a possibilidade de que, com o fim da União Soviética, parte de seu antigo arsenal nuclear caia nas mãos de terroristas. No enredo, um iugoslavo pretende desintegrar Nova York com uma bomba atômica roubada, em protesto contra a indiferença do Ocidente para com a guerra na Bósnia. Os protagonistas – um militar e uma cientista do governo, interpretados por George Clooney e Nicole Kidman – vivem um drama que, na semana passada, tornou-se realidade: tentam dar um rosto ao terror
O SUSPEITO DA RUA ARLINGTON (1999) 
Mesmo depois do atentado de 1995 em Oklahoma City, em que um cidadão americano, branco e condecorado na Guerra do Golfo – Timothy McVeigh, executado em junho – matou 168 civis com um carro-bomba, o "inimigo interno" não se tornou um vilão muito explorado pelos roteiristas de Hollywood. Uma exceção – e de boa qualidade – é esse suspense, em que o professor universitário vivido por Jeff Bridges, especializado no estudo do terrorismo doméstico, acredita que tem boas razões para desconfiar de seus novos vizinhos, por mais normais que eles pareçam
HELICÓPTEROS SOBRE OS ESCOMBROS 
"A cauda do 747 estava intacta, cravada nos escombros como as penas de uma flecha no couro de um animal morto. O que surpreendeu Ryan foi que o incêndio persistia. O Capitólio era um edifício de pedra, mas em seu interior havia mesas de madeira, vastas quantidades de papel e Deus sabe mais o quê, mantendo a combustão. Como moscas sobre lixo, helicópteros militares sobrevoavam os escombros em círculos. (...) O plenário da Câmara era agora uma cratera soterrada por pedras, antes impecavelmente brancas, agora enegrecidas com fuligem. Mas o que mais chamava a atenção na cena era uma coleção de ambulâncias, em torno das quais equipes de paramédicos estavam paradas, segurando macas vazias. Nada podiam fazer senão olhar para o leme branco do 747."
Trecho do romance Ordens do Executivo, de Tom Clancy, em que o autor descreve o ataque de um piloto suicida ao Congresso dos Estados Unidos.

CLUBE DA LUTA (1999) 
O polêmico Clube da Luta é outra produção que aborda o inimigo interno. O filme acerta em cheio ao mostrar a mistura altamente volátil de frustração, vazio, fanatismo e revolta mal dirigida que compõe a personalidade dos terroristas. Os personagens interpretados por Edward Norton e Brad Pitt acham que a esterilidade de suas vidas é uma decorrência do consumismo – e que a culpa, portanto, não é deles, mas do "sistema". Por isso, criam uma seita neofascista e vingam-se com uma escalada de atos de vandalismo, que culmina no bombardeio de prédios ligados a companhias de crédito e congêneres

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Via: veja