Washington não precisa de uma Ucrânia sem confrontos

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Ucrânia, EUA, política, guerra

Segundo anunciou um representante do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, um grupo especial do Pentágono chegou a Kiev ontem, 5 de agosto,  “para ajudar na investigação” das circunstâncias do desastre do Boeing 777 malaio. Quando perguntaram ao representante oficial do Departamento de Defesa, vice-almirante John Kirby o que irão exatamente fazer os peritos do grupo, ele disse ele que eles não irão ao local do acidente, mas irão aconselhar desde Kiev investigadores da Holanda, Austrália e Malásia.

Há que ter em conta que nunca foi da competência do Pentágono investigar acidentes e colisões de aviões de passageiros. Nos Estados Unidos isso é sempre feito exclusivamente pela Gerência Nacional de Segurança nos Transportes (National Transportation Safety Board – NTSB) e a Administração Federal de Aviação. O Pentágono é chamado apenas em caso de desastres de aviões militares. A propósito, a NTSB já enviou os seus próprios peritos à Ucrânia cerca de três dias após a tragédia em 17 de julho.
A delegação, segundo o Pentágono, é composta por especialistas em “operações especiais, logística, planejamento de operações aéreas”. Parece não ser bem o que é necessário para a investigação.
A chave do enigma está numa curta frase do comunicado de imprensa do Pentágono. Depois de “ajudar a investigação” da catástrofe do voo MH17, o grupo começará logo a treinar o Exército e a Guarda Nacional ucranianos no ocidente da Ucrânia. Em outras palavras, trata-se da ampliação da participação de conselheiros militares norte-americanos na reconversão profissional, reequipamento técnico e rearmamento das Forças Armadas e das forças especiais das autoridades de Kiev.
Peritos russos dizem que é óbvio que estão sendo aplicados à Ucrânia os padrões do Kosovo ou até mesmo do Vietnã. A presença militar norte-americana no Vietnã também começou com algumas dúzias de conselheiros militares enviados para o sul em 1954. E os albaneses do Kosovo estão sendo ensinados e “aconselhados” pelos norte-americanos até hoje.
Infelizmente, em relação à Ucrânia, e isso é cada dia mais evidente, está se repetindo a situação pela qual já passaram os Bálcãs com suas guerras civis e a dissolução da Iugoslávia, acredita o professor da Universidade Estatal de Moscou Andrei Manoilo. Só que desta vez os Estados Unidos estão agindo ainda mais direta e cinicamente. Em Kiev já todos sabem perfeitamente que a CIA ocupa um andar inteiro do edifício do Serviço de Segurança da Ucrânia. Aproximadamente o mesmo está sendo preparado no Ministério da Defesa.
Do ponto de vista geopolítico, a balcanização da Ucrânia é muito lucrativa para Washington, diz Andrei Manoilo. A transformação da Ucrânia numa grande e constante fonte de tensão sob o controle dos EUA é necessária como uma ferramenta de enfraquecimento da influência da Rússia. Qualquer conflito nas fronteiras da Rússia imediatamente se torna uma séria ameaça à sua segurança. “A exportação de caos controlado da Ucrânia para a Rússia” é um dos objetivos de toda a “operação ucraniana” concebida por Washington, acredita o especialista:
“Mergulhando a Ucrânia no chamado “caos controlado” usando lá as tecnologias de “revoluções coloridas”, os norte-americanos estão criando um conflito que eles sabem muito bem controlar. Este conflito os norte-americanos estão hoje usando como um instrumento de influência política tanto sobre seus adversários como sobre seus aliados. A posição geopolítica da Ucrânia neste respeito parece aos norte-americanos ser extremamente lucrativa. Ora, por causa disso, os norte-americanos não vão, em nenhumas circunstâncias, contribuir para nenhum plano de paz na Ucrânia. Sem um conflito, que pode ser controlado, a Ucrânia será simplesmente desinteressante para Washington. Eles irão lançar constantemente novo combustível nas chamas da guerra civil”.
A organização de um regime de “caos controlado” e a provocação de uma guerra civil na Ucrânia são um reflexo do que os Estados Unidos fizeram na Síria e no Iraque, nota o perito do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais, Stanislav Ivanov. E a Síria e o Iraque não são nada mais que uma continuação da guerra organizada artificialmente contra a Iugoslávia na década de 1990.
Na Síria e no Iraque, os EUA apoiaram as forças islamistas mais radicais. Agora essas forças estão fora de controle e ameaçam afogar em sangue toda a região. Na Ucrânia, Washington organizou um golpe de estado realizado pelas forças nacionalistas e neonazis mais violentas, lembra Stanislav Ivanov:
“Temo que na Ucrânia tudo ainda esteja para vir. Hoje não há previsões otimistas. Mesmo que as autoridades reprimam o movimento no leste, nenhuma paz, tranquilidade e bem-estar virão ao país. É preciso restaurar tudo o que foi destruído, dialogar com as regiões do leste. E como poderão fazer isso se lá foi derramado tanto sangue? Milhares de mortos e feridos e já mais de um milhão de refugiados? O “caos controlado” nas fronteiras da Rússia calha bastante bem a Washington”.
Mesmo na União Europeia não há dúvidas a respeito de quem provocou a crise na Ucrânia, porque o “estilo pessoal” é difícil de esconder, acredita o diretor do Centro Europeu de Análise Geopolítica Mateusz Piskorski. Além disso, os autores norte-americanos de “revoluções coloridas” ou do “caos controlado” não são particularmente inventivos. Na Ucrânia eles já rodaram o mesmo guião duas vezes (já houve dois Maidan) e se necessário, irão lançá-lo uma terceira vez, diz Piskorski.
Segundo peritos militares russos, Kiev hoje já está totalmente em modo de “controle externo” dos EUA. Todas as decisões das autoridades são primeiro confirmadas com a embaixada norte-americana. Chega mesmo a acontecer que a posição do governo de Kiev é primeiro expressada pelo Departamento de Estado dos EUA e só depois pelo ministro das Relações Estrangeiras da Ucrânia.

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